Vivemos tempos estranhos. Sempre que um jovem agride um professor,
vandaliza uma escola, insulta um agente da autoridade, destrói
património público ou revela uma total incapacidade para viver em
sociedade, a pergunta parece ser sempre a mesma: “Onde falhou a escola?”
Raramente se pergunta: “Onde falharam os pais?”
Esta inversão de responsabilidades tornou-se uma das maiores fragilidades da sociedade contemporânea.
A escola ensina a ler, a escrever, a pensar, a calcular, a conhecer a
História, as Ciências e as Artes. Mas nunca poderá substituir aquilo
que apenas a família pode transmitir: a educação para o respeito, para a
honestidade, para a responsabilidade, para o cumprimento de regras e
para a convivência com os outros.
Quem acredita que a escola pode compensar anos de ausência educativa em casa está a pedir o impossível.
Desde Aristóteles que sabemos que a virtude se adquire pelo hábito.
Não é uma disciplina que se aprende num manual. Constrói-se todos os
dias, através do exemplo. E o primeiro exemplo de qualquer criança são
os pais.
É em casa que se aprende a pedir desculpa. É em casa que se aprende a
esperar pela vez. É em casa que se aprende que um “não” continua a ser
um “não”. É em casa que se aprende que existem consequências para as
escolhas que fazemos.
Os filhos observam tudo. Aprendem mais com aquilo que veem do que com
aquilo que ouvem. Se crescerem rodeados de desrespeito, intolerância,
agressividade, mentira ou permanente desresponsabilização, dificilmente
chegarão à adolescência ou à idade adulta sem transportar esse modelo de
comportamento.
Naturalmente, nenhum pai controla todas as decisões dos seus filhos. A
personalidade, os amigos, a escola e a sociedade influenciam qualquer
percurso de vida. Mas isso não elimina a responsabilidade de quem teve
nas mãos a primeira e mais importante missão educativa.
Educar nunca foi apenas alimentar, vestir ou proporcionar conforto material. Educar é formar caráter.
E formar caráter exige presença, coerência e exemplo.
Hoje, porém, parece mais fácil exigir tudo aos professores. Queremos
que a escola ensine Matemática, Português, Educação Financeira,
Literacia Digital, Educação Sexual, Educação Ambiental, Cidadania, Saúde
Mental, Alimentação Saudável, Combate ao Bullying, Segurança Rodoviária
e mais uma infinidade de temas que a sociedade vai sucessivamente
empurrando para dentro das salas de aula.
Entretanto, muitos pais limitam-se a entregar os filhos à porta da
escola como se estivessem a entregar um produto para reparação.
Não estão.
A escola nunca poderá sobrepor-se ao papel dos pais. Nem deve
fazê-lo. A sua missão é complementar a educação familiar, não
substituí-la. Quando se tenta transformar a escola no principal agente
educativo, está-se a desresponsabilizar quem nunca poderia deixar de o
ser: a família.
Depois, quando surgem comportamentos violentos, falta de respeito
pela autoridade, incapacidade de aceitar regras ou ausência de sentido
de responsabilidade, procura-se um culpado em todo o lado. Culpam-se os
professores, os currículos, os diretores, o Ministério, os telemóveis,
as redes sociais ou os videojogos.
Quase nunca se olha para casa.
Há uma questão filosófica que continua tão atual como há milhares de anos: até onde vai a responsabilidade de quem educa?
Se aceitamos que os pais moldam o caráter durante os anos mais
decisivos da infância, então não podemos fingir que essa influência
desaparece quando surgem os primeiros problemas. A responsabilidade
parental não termina à porta da escola, nem termina quando o filho
completa dezoito anos. Ela acompanha todo o processo de formação da
pessoa.
Talvez seja tempo de a sociedade voltar a afirmar um princípio simples: direitos e responsabilidades caminham lado a lado.
Quem assume a extraordinária missão de ser pai ou mãe assume também a responsabilidade de educar cidadãos.
E isso implica responder pelos exemplos que dá, pelos valores que transmite e pelos limites que estabelece.
Porque os filhos não nascem cidadãos.
São os pais que, todos os dias, os ajudam a tornar-se um.
E quando os pais se demitem dessa missão, nenhuma escola, por melhor
que seja, conseguirá ocupar o lugar que nunca lhe pertenceu.